Frei Betto: Por mais reformas estruturais – e mais utopias

Entrevista com Frei Betto – Via Fazendo Media.

Em uma ‘entrevista-roteiro’, o dominicano perseguido pela ditadura que ajudou a fundar o PT afirma: “Estou convencido que no passado dos povos indígenas estão as dicas para o nosso futuro”.

Frei Betto. Foto: divulgação

Embora tenha participado intensamente da construção do Partido dos Trabalhadores (PT) e seja amigo de Lula há décadas, o dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, não poupa críticas ao governo. Declara que seu voto nas eleições deste ano é de Dilma Rousseff, mas aponta diversas insuficiências e falhas no programa político do partido, sobretudo em relação à ética.

Frei Betto é jornalista, autor de mais de 50 livros e um dos expoentes da Teologia da Libertação no Brasil, corrente criada na Igreja Católica que, entre outras questões, lutou abertamente contra a última ditadura militar no país.

O filme nacional “Batismo de Sangue”, inspirado no livro de sua autoria, retrata o apoio do religioso à luta armada naquele período. Ficou preso durante quatro anos, foi torturado e depois morou cinco anos na periferia de Vitória (ES), onde ficou escondido do regime que lhe perseguia. Nunca deixou de lutar ao lado dos movimentos sociais, aos quais presta assessoria até hoje. Aos seus 69 anos, o escritor mineiro já recebeu prêmios literários e na área dos direitos humanos devido à sua trajetória marcada pela luta em defesa da justiça social.

Durante o lançamento no Rio de Janeiro do livro “O homem que amava os cachorros”, do escritor cubano Leonardo Padura, publicado pela Boitempo Editorial, o Fazendo Media conversou com o intelectual sobre temas de interesse nacional. Para ele, os governos do PT são despolitizantes e trocaram um projeto de Brasil por um projeto de poder. As reformas mais necessárias no país, segundo ele, não foram realizadas.

Na entrevista a seguir ele fala sobre as políticas públicas para o meio rural brasileiro, a necessidade de democratização da mídia e a conjuntura política na América Latina, entre outros temas.

Fazendo Media – Em relação à espiritualidade da juventude, tema de seu interesse e que remete às manifestações de rua no ano passado, como você a vê quanto às suas utopias?

Frei Betto – O governo do PT nesses 11 anos promoveu uma inclusão econômica de parcela considerável da população, 55 milhões de pessoas saíram da miséria, mas não promoveu uma inclusão política. E mais: são governos despolitizantes.

Nessa inclusão econômica foram favorecidos direitos pessoais, acesso a créditos, a compra de automóveis com prazo de 90 meses, desoneração da linha branca, Minha Casa Minha Vida, Luz para todos, mas não os direitos sociais. Educação, saúde, segurança e transporte. E diziam que não havia dinheiro para isso, e de repente apareceram os elefantes da Copa com uma montanha de dinheiro.

A auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE) apontou detalhadamente o superfaturamento de R$ 67 milhões nas obras do Maracanã.

Pois é, então a juventude hoje busca o seu espaço de participação. De uma maneira um pouco anárquica às vezes, porque eles sabem como protestar mas ainda não têm clareza sobre o que propor. De qualquer forma eu considero as manifestações extremamente positivas. Prefiro um jovem na rua protestando que na balada dançando, embora a balada seja importante também – mas fico preocupado quando ele só está na balada.

Nós precisamos resgatar a utopia, eu sou de uma geração que era viciada em utopia e por isso havia droga e não havia quase drogados. Estou convencido que quanto mais utopias menos drogas, e quanto menos utopia mais drogas. Não dá para viver sem o sonho. Ou o sonho é espiritual, idealístico, político, artístico, estético, ou é químico.

O mensalão veio à tona, mas do ponto de vista mais amplo, sem se ater aos últimos acontecimentos, como o PT se encaixa no processo histórico em termos de Estado brasileiro em relação à corrupção?

O PT é um partido que nasceu com três características básicas: ser um partido das classes trabalhadoras, dos pobres; um partido sem corrupção, um exemplo ético; e ser um partido que tem como horizonte a construção do socialismo no Brasil.

Infelizmente ele hoje não é o partido de nenhum dos três propósitos, e trocou, não todos os petistas mas o partido como tal, um projeto de Brasil por um projeto de poder. Conquistar e permanecer no poder é mais importante que mudar o país. Tanto que em 11 anos tivemos grandes avanços, considero os governos Lula e Dilma os melhores da nossa história republicana, mas nenhuma reforma de estrutura: agrária, tributária, política, etc.

E, no caso da ética, o PT precisa se definir porque até hoje não disse se os mensaleiros são inocentes ou culpados. Agora, no caso do deputado André Vargas, o PT fica esperando que ele tome iniciativa. Sim, mas e o partido em relação a ele? Então é preciso voltar a ter uma dinâmica mais rigorosa com a questão ética, que está faltando.

Qual a perspectiva em relação ao processo eleitoral neste ano? Temos há mais de duas décadas a disputa do PSDB e o PT…

Eu tenho a impressão que a Dilma será reeleita, e visto de hoje se depender do meu voto isso vai acontecer. Mas tem muitas pedras no caminho até lá, tem a Copa, enfim, não sabemos o que pode acontecer.

Em relação à América Latina, tivemos alguns avanços com modelos que apresentam alternativas ao neoliberalismo até então dominante. Porém historicamente nosso continente sempre oscilou muito, e mudanças mais progressistas sempre foram interrompidas. A tendência é avançarmos no continente?

Somos o único continente que não está sofrendo reflexo da crise mundial por causa dos governos democráticos populares. O nível de emprego está alto, há uma redução significativa da pobreza, embora permaneça uma grande desigualdade social. No Brasil, segundo o IBGE, entre os mais ricos e os mais pobres ela é de 175 vezes.

Mas há avanços, porque nos libertamos da ingerência do FMI, temos maior nível de soberania, e tomara que continue caminhando. E há uma grande unidade latino-americana hoje entre os países, todos solidários a Cuba, por exemplo, todos contra o bloqueio dos EUA a Cuba, e isso é extremamente positivo.

Você enquanto jornalista embora tenha certa inserção na mídia tradicional está sempre ocupando espaços mais alternativos como o Brasil de Fato, Adital, Caros Amigos etc. Qual a sua opinião sobre a mídia brasileira e por que você adota essa postura?

Não faço discriminação de espaço, busco passar a mensagem e aproveito todos eles. Mas acho que o Brasil precisa de uma democratização da mídia, essa é outra reforma urgente. Não faz sentido, por exemplo, nossas redes de televisão que pertencem à União e são uma concessão pública ficarem restritas a meia dúzia de famílias. Gostaria muito que os sindicatos, os movimentos sociais, etc, tivessem também canais de TVs, rádios…

Existem muito poucos, é pontual, e vira e mexe os deputados e seus parentes conseguem essas concessões. Então tem alguma coisa estranha, assim como o Governo Federal ter que pagar para ter publicidade dos seus bancos e ministérios na mídia de rádio e televisiva na medida em que ele é o proprietário de fato.

Você teve importante participação na construção do programa federal Fome Zero, então sabe como se dá essa construção por dentro. Os movimentos sociais estão bastante insatisfeitos com as políticas públicas para o campo nos últimos governos, principalmente da Dilma para cá.

O campo está esquecido, o êxodo rural continua, o Brasil tem mais de 80% da população nas cidades, e o campo está ocupado hoje pelo agronegócio, inclusive invadindo a Amazônia. E a reforma agrária, que é uma bandeira que vem desde a época da libertação oficial dos escravos, continua sem nenhuma medida efetiva de realização. Num país de dimensões continentais como o Brasil, que é o único no mundo em que mesmo não se plantando dá porque onde a área não é cultivável é extrativa, como é o caso da Amazônia.

Isso não tem em nenhum outro lugar do mundo, o Brasil não tem deserto, não tem furacão, vulcão, neve, enfim, não tem nada que impeça. A China, por exemplo, tem grande parte de seu território absolutamente improdutivo, desértico, e nós não temos nada disso.

Você relacionou alguns elementos que te deixam insatisfeito em termos de modelo de país, mas quais seriam as alternativas prioritárias para termos mais avanços e um país mais justo e democrático?

As reformas de estrutura. Houve um momento, na entrada do governo Lula, que a correlação de forças estava muito favorável. Naqueles dois primeiros anos alguma reforma agrária seria feita com muita tranquilidade, o próprio Fome Zero deveria ter sido levado adiante porque é uma política social emancipatória.

Mas, por razões que eu explico no meu livro “Calendário do poder”, da editora Rocco, se trocou um programa emancipatório por um programa compensatório que é o Bolsa Família. O Bolsa Família é bom, mas não é emancipatório, tanto que quem entrou permanece até hoje.

Você foi preso, torturado e “exilado”. Qual a sua opinião sobre a Comissão da Verdade?

A Comissão da Verdade está fazendo um excelente trabalho, mas lamentavelmente é só da verdade e não da justiça. Deveria haver uma punição exemplar de todos que foram responsáveis na ditadura. Espero que a presidente Dilma possa prolongar o período dessa comissão, e que aprofunde em áreas que ainda estão pouco investigadas como, por exemplo, a vitimização dos povos indígenas durante a ditadura.

Você está no lançamento do livro de um escritor cubano e também é autor de vários livros. Como estamos na área cultural?

Há uma depreciação da cultura no Brasil devido à má qualidade da educação, as pessoas leem pouco nesse país. Não podemos incentivar a cultura sem ter por trás uma educação de qualidade, que seja integral e de preferência pública e gratuita. Não o que temos visto por aí: uma educação elitista, faculdades que são meros balcões de negócios, pagou passou, dando diplomas até para médicos sem qualificação suficiente.

E isso se reflete na cultura, basta ver a grande mídia, que emite pouca cultura e muito entretenimento, enquanto devia ser o inverso. O entretenimento devia ser importante, mas não pode ser o majoritário.

Tem quem diga que no livro Quarup o protagonista Nando é inspirado em você. Nos últimos anos os conflitos indígenas se acentuaram no país, ganhando repercussão inclusive internacional. No governo PT tivemos diversas crises nessa área.

Muita gente dizia, eu era muito amigo do Callado quando ele escreveu o livro, e ele me entrevistou muito sobre a teologia da libertação, etc. Eu tenho um livro infanto-juvenil sobre a questão indígena, chamado “Uala, o amor”, da editora FTD… A política do governo está inteiramente equivocada nessa área, está a favor do agronegócio e contra os povos indígenas. E eu estou convencido que no passado dos povos indígenas estão as dicas para o nosso futuro.

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